1. Este ano você desceu 121m e bateu o recorde mundial de profundidade em
Bonaire no Caribe, junto com o belga Patrick Mussimo. Estar na presença um
do outro, contribuiu para essa façanha conjunta?
Fora da água sim, o fato de estarmos em “equipe” reforça a parte psicológica, quando a equipe se dá bem é claro.
E foi o que aconteceu conosco. Dentro da água é preciso muita coordenação. Desde a ventilação na superfície até a velocidade de descida da máquina e a compensação dos ouvidos.
2. Em algum momento você sentiu que corria algum risco mais extremo?
Não. Os riscos são geridos através de um planejamento e execução de planos de segurança. Desde o meu próprio treinamento, ao treinamento da equipe, até a checagem dos equipamentos, conferência das manobras de segurança, tudo é planejado minuciosamente.
3. Há planos para retomar esse recorde?
Para 2011 meu objetivo é seguir no No Limits “solo” e retomar esta disciplina futuramente. No próximo ano terei treinos e desafios em Bonaire, Egito, Grécia e Cuba.
Os treinos em profundidade são cansativos e exigem não somente grande preparação, mas também uma grande estrutura montada.
4. Porque Bonaire? Este local apresenta alguma condição diferenciada para um
mergulho tão complexo?
O mais importante em relação ao mar é ter a profundidade bem próxima da costa. Isto é um item de segurança muito importante.
Além disto Bonaire apresenta facilidade para os treinos, porque o mar é calmo, azul, temperatura ótima e com excelentes condições para a prática do mergulho.
E do lado de fora da água, conto com parceria do resort Buddy Dive e uma equipe treinada de mergulhadores para me dar o suporte adequado.
5. Outro recorde seu foi na Grécia, com a skandalopetra, uma modalidade
tradicional dos antigos pescadores de esponjas marinhas da região a qual é
realizada em apnéia, sem wetsuit e com uma rocha nas mãos. Conte-nos um
pouco das dificuldades que encontrou nesta aventura atípica.
O maior desafio foi enfrentar a água fria e as diferenças de técnica de mergulho desta modalidade. Senti uma enorme falta da minha roupa Mormaii…
Mas era proibido o uso… Ainda assim utilizei nos aquecimentos para não perder o calor e a energia antes da prova.
Descer com uma pedra de 12kg nas mãos, sem nadadeiras, sem máscara, sem uma forma de frear a descida, é muito estranho. Foram poucos dias de treino específico, pois tivemos problemas com o clima que acabou não permitindo algumas saídas.
Mas deu tudo certo e espero retornar à Grécia para melhorar esta marca. É um local maravilhoso e cheio de história!
Os mergulhos são em águas azuis e já da costa é possível atingir 70m facilmente.
6. Você detém um recorde sobrehumano de apnéia, permanecendo sem respirar
por mais de 18 minutos, conte-nos um pouco dos seus preparativos para essa
epopéia.
Decidi treinar para esta marca do Guinness Book há quase 2 anos atrás. Mas só me senti inspirada no começo de 2009.
Fica difícil dominarmos várias disciplinas ao mesmo tempo, por isto cada treinamento e meta é definido antecipadamente.
Comecei fazendo uma grande pesquisa sobre os atletas que já haviam realizado marcas nesta prova, consultei médicos especialistas e defini o meu plano de treinamento.
Tive apoio do Lira Tênis Clube e da Academia Racer da Trindade, onde pude fazer os treinos em piscina. Também segui um treinamento fora da água, além do yoga, até chegar na semana do recorde.
Este é um fator que interfere demais, porque mesmo quando você faz a marca em treinamento, você precisa repeti-la no dia da tentativa…
Três dias antes eu já havia batido o recorde, tive que praticamente repeti-lo em menos de 2 dias, o que tornou o dia oficial mais estressante e difícil, mas consegui chegar lá!
É estranho comentar sobre o tempo que fiquei sem respirar, porque a minha noção de tempo durante o mergulho não é a mesma…
Fico tão relaxada, os batimentos caem tanto (chegaram até 25bpm) que o tempo passa rápido demais… uma grande parte da apnéia é pura meditação,
Depois disto vem a fase difícil (strugle phase). É uma nova etapa, onde somente o treinamento físico e psicológico ajudarão a transpor as dificuldades.
Saí muito bem da água, isto é sinal de que dará para emplacar mais um recorde mundial no futuro.
7. Quais são os riscos pro organismo humano em uma situação como esta e quais medidas são tomadas durante a atividade?
O treinamento te dá a adaptação para aceitar a hipoxia (taxa baixa de Oxigênio) e também a hipercapnia (taxa alta de CO2 dióxido de carbono).
Numa situação extrema todo o corpo sofre e isto pode levar a uma parada cardíaca.
As medidas são: treinar, saber o seu limite, dispor de regras de sinais de segurança onde a supervisão é importante, ou seja, a performance é monitorada de fora e qualquer sinal de que algo não está bem, o atleta é retirado da água.
Antes de se chegar numa situação limite, é possível executar uma avaliação do atleta através da exigência de contatos pré-estabelecidos. Do lado de fora da água, especialista em reanimação estão preparados e há oxigênio disponível para uma emergência.
8. Deixe um recado pro leitor da Mormaii que estiver interessado em iniciar no mergulho.
O mergulho em apnéia é um esporte maravilhoso, muito além dos recordes, temos um esporte que nos permite o contato com o mundo aquático.
É uma prática que acaba exigindo uma melhor respiração, um maior controle mental e também condicionamento físico específico, o que irá trazer benefícios para o ser humano também fora da água.
Mas antes de se aventurar, o ideal é realizar um curso para cair na água com informação e técnicas apropriadas.
Você pode procurar orientação com a própria Karol pelo site karolmeyer.com
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